Já a este reino mágico ia dar um saltinho

Setembro 28, 2007 às 7:13 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Stardust é mais do que parece. Os que ficam cépticos perante a ideia de ver um conto de fadas em Robert De Niro é um pirata gay devem dar um salto ao reino de Stormhold. É mais ou menos isto…

Dois veteranos, mais algumas caras conhecidas e um conto de fadas que pretende reavivar a ingenuidade dos mais velhos. São estes os ingredientes para a poção mágica de Stardust. Está longe de ser o remédio perfeito mas acumula uns bons momentos de fantasia com direito a gargalhada. Os responsáveis pelo sucesso parcial: Robert De Niro e Michelle Pfeiffer.

Um muito rústico muro separa dois mundos opostos. De um lado, a típica aldeia medieval com a frágil e mimada donzela, o galã emproado e o desajeitado que quer conquistar a mais popular jovem senhora das redondezas. Tristan (Charlie Cox) promete a Victoria (Sienna Miller) que lhe trará uma estrela caída do céu no prazo de uma semana e em troca, ela assegura que irá casar com ele.

Tal como o seu pai um dia fez, o dito jovem pouco másculo atravessa a fronteira proibida e entra num reino de fantasia, cheio de monarcas fantasmas, bruxas envelhecidas e piratas pouco comuns. Tudo para trazer de volta à sua suposta amada o presente que ela exigiu. Como todos esperariam, a acção acaba por sofrer voltas e reviravoltas, encontros e desencontros que vão elevar a busca de Tristan a uma nova dimensão e a uma impressionante descoberta.

Quanto à estrela que justifica o nome do filme, chega sob a forma de uma muito loura Claire Danes com um sotaque britânico fruto de um enorme esforço. Mas Yvaine tem um problema: a personagem não consegue convencer o espectador sobre qual é a sua personalidade. Tanto viaja por algumas passagens ironicamente airosas como cai no ultra-romantismo.

Stardust é um conto de fadas baseado no livro de Neil Gaman, que dizem ser um Tolkien mais contemporâneo e bem ao jeito de As crónicas de Nárnia, apostando, contudo num caminho mais «adulto».

A ideia é misturar imaginários, entre reinos terrestres e aéreos e entre bons e maus da fita. A mistura nem sempre é a melhor, fazendo com que a história não pareça a mais consistente mas, a salvar a premissa, estão alguns grandes actores fora do seu registo normal. A bruxa mais maléfica de todas as bruxas maléficas, Lamia (Michelle Pfeiffer), entra num notável papel cómico e consegue oferecer uma personagem suficientemente sólida para guiar o filme. A maturidade da actriz parece ter-lhe dado uma maior liberdade para aceitar os papéis que lhe dão gozo fazer.

Mas o melhor de Stardust vem dos céus. De um barco que rasga os céus com um bando de patifes do mais macho que há no reino da pirataria comandados por um capitão que esconde um segredo temível para a sua dura reputação: é gay. De referir é também a pequena participação de Ricky Gervais (criador da série The Office) como um contrabandista de renome e com um registo cómico notável.

Pela cabeça dos mais atentos, decerto já terá passado a ideia de que poderão surgir semelhanças com o pirata mais popular de sempre: Jack Sparrow. No entanto, Robert De Niro, dá ao pirata Shakespeare, a genialidade do seu talento e torna-o no ponto alto de Stardust.

Tudo o resto, gira à volta destas estrelas maiores. Alguma patetice, muito sentimentalismo mas, afinal, é um conto de fadas e não é seu objectivo ser realista, é antes ser mágico.

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Não faria reserva neste restaurante…

Setembro 28, 2007 às 7:10 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Apesar de já ter percebido que são muitas as opiniões contrárias à minha, aconselho, obviamente de acordo com os padrões do que me parece um bom filme, que evitem Sem reserva. Aqui ficam as notas soltas que andaram esta semana pelo estaminé do costume.

Se Ratatui foi um fantástico conto sobre culinária e sobre os sonhos de um chef, Sem reserva é uma desinspirada – o termo correcto é aborrecida- comédia romântica sobre uma chef com a mania dos detalhes e um cozinheiro pouco preocupado com a organização no espaço de trabalho. O velho conto do regrado que encontra o sem regras volta ao grande ecrã para dois efeitos: entediar e abrir o apetite.

 

Em 2001, o filme alemão Bella Martha contava a história de uma cozinheira demasiado organizada e desligada do resto do mundo que se vê obrigada a tomar conta da sua pequena sobrinha depois da morte da irmã.  

Seis anos depois, Scott Hicks decidiu levar a ideia para Hollywood, contá-la à maneira americana e incluir as devidas estrelas para assegurar a receita de sucesso.  

Catherine Zeta-Jones seria a dita chef. Aaron Eckhart – a tentar o registo da comédia romântica – seria o cozinheiro atrevido e Abigail Breslin, a menina de Uma família à beira de um ataque de nervos, asseguraria a figura infantil da fita. 

Passou a chamar-se No Reservations (Sem reserva) e, em inglês, contou o que se segue. Kate (Zeta-Jones) é quem manda na cozinha do requintado e bem cotado restaurante 22 Bleecker Street. Nada pode falhar nos pratos, no serviço e no toque final assim como nada pode errar na vida aparentemente infalível de Kate. À noite, ao passar a porta do estabelecimento onde trabalha, leva para casa os mesmos métodos, manias e maneirismos.  

Um dia, a sua organizada vida sofre uma drástica alteração inesperada. A sua irmã tem um acidente, deixando a Kate a tutela da pequena Zoe (Breslin). As rotinas ficam viradas do avesso, os horários ficam descontrolados e a racionalidade que Kate usava insistentemente tem de desaparecer. Como se não bastasse, chega à sua cozinha um novo chef de métodos pouco ortodoxos (Eckhart) que, pasmem-se, vai mudar a sua vida para sempre.   

Sem reserva é exactamente aquilo que aparenta ser, mas de uma forma ainda mais linear. O típico argumento romântico que balança entre o sentimentalismo e a cena humorística, sempre sem se atrever e nunca saindo dos padrões daquilo que é socialmente aceitável. Não se arrisca nos diálogos, nem inova nas imagens que se resumem a um vaivém entre a cozinha e o apartamento, os pratos e a comida. 

Acima de tudo, Sem reserva é entediante e não permite ao espectador viver um único momento de surpresa. Desde o primeiro plano, em que se adivinha ao longe quais vão ser as relações e qual vai ser o rumo da narrativa. Ainda mais incómodo é perceber-se percebe-se à distância qual vai ser a frase do livro de «falas-que-se-devem-usar-naqueles-segundos-bonitos-que-antecedem-o-beijo-dos-protagonistas» aplicada na cena em questão. 

Se Ratatui não tivesse a magia, a originalidade e a aura de clássico que a Pixar lhe impôs, o resultado poderia ter sido algo parecido com este Sem reserva. 

Bourne no ponto

Setembro 24, 2007 às 3:43 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Não sou uma entusiasta fã da saga Jason Bourne como também não sou uma acérrima (nem nada que se aproxime disso) defensora de Matt Damon.

Não me rendi a The Bourne identity (MUITO longe disso) e não fiquei de joelhos perante The Bourne supremacy, embora lhe reconheça o ar fresco que o talento de Paul Greengrass trouxe ao filme.

Assim sendo, segui para The Bourne Ultimatum sem preconceitos mas também sem superiores expectativas, apesar de alguns burburinhos me andarem a zumbir pareceres positivos.

A verdade é que este Bourne atingiu o ponto que julgo ser o ideial dos envolvidos no projecto e não desilude. A narrativa já não tem muito por onde escapar mas a realização frenética de Greengrass faz o espectador ficar colado ao ecrã e, mais, traz cenas de acção bastante refrescantes de fazer inveja a um James Bond (como aquela em que, durante 20 minutos que parecem muito menores, os protagonistas correm pelos mais tradicionais telhados marroquinos).

Não vamos, com este comentário, embandeirar em arco e comparar Matt Damon a Daniel Craig. Até porque são pontos de partida e estilos muito díspares. Apesar disso, é preciso reconhecer que há, de facto, em algumas cenas de The Bourne Ultimatum, uma clara inspiração no universo de perseguições/momentos de vulnerabilidade bondianos.

Ainda de referir que há algumas reviravoltas interessantes e que conferem a este terceiro filme uma rawness bem jeitosa a colocar Jason Bourne no patamar dos personagens hate them and love them.

Nota de rodapé: Não esquecer de que David Straithairn é um Senhor e trabalha o seu vozeirão de uma forma irrepreensível!

 

A respeito de Jolie e A mighty heart

Setembro 15, 2007 às 3:14 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Acho que sobre este vale a pena debruçarmo-nos. Acho que esta história merece que deixemos a sala de cinema e paremos para reflectir durante uns minutos. Quem sabe se poderá trazer uma saudável discussão entre amigos sobre as relações ocidente/oriente.

Aqui ficam as minhas notas sobre A mighty heart publicadas no sítio do costume.

Fevereiro de 2002. Carachi, Paquistão. Meses depois do 11 de Setembro, Mariane Pearl via o seu marido, Daniel Pearl, ser assassinado por um grupo fundamentalista islâmico. A história passou a livro, o livro passou a filme. Um filme que comporta o melhor trabalho de Angelina Jolie e um equílibrio notável que o torna realista, não heróico; um relato e não uma lição de moral.

O contexto: Os Estados Unidos ainda ressacavam dos atentados ao World Trade Center. A atenção da opinião pública e dos média estava virada para as movimentações a oriente. Daniel Pearl era um dos muitos jornalistas designados para o tema e representava o Wall Street Journal, relatando os retratos do Paquistão. Procurava representantes dos governos, conhecidos terroristas ou aliados da Al-Qaida, investigava sobre as alegadas relações entre as duas partes e explorava as crenças de todas. Conhecia as pessoas, comuns, independentes de outras guerras, e contava as suas histórias. Lá, sob um ponto de vista diferente e regulado por valores muito próprios. No fim, seria sob o pretexto da sua própria crença (Daniel era judeu) que o seu rapto seria explicado. Um dia, saiu de casa para se encontrar com um líder de uma célula fundamentalista (um encontro que qualquer jornalista naquele terreno sonha em ter) e não voltou mais. De jornalista passou a instrumento para as intenções ideológicas dos raptores. Tornou-se a imagem de sacríficio americano. Em casa, Mariane Pearl, a mulher grávida de cinco meses, assistia ao desenrolar das investigações com uma racionalidade fora do comum. Poucas lágrimas, poucos momentos de desespero e uma frieza que parecia apenas espelhar a vontade de não se render às intenções dos homens que lhe levaram o marido. Chegou a admitir numa das entrevistas que concedeu para a televisão que era por isso que não vacilava. Não o fazia e muito menos no ar. A história de A mighty heart é, indiscutivelmente, interessante, premente e justifica por si só a passagem a filme. Não há quem não se identifique com o medo, nem quem não se apegue a uma narrativa que atravessa o dia-a-dia da política e das sociedades ocidentais. Vêmo-los de cá, eles vêem-nos de lá. Todos funcionamos segundo os nosso próprios padrões. Visualmente falando, Um coração poderoso não é o mais perfeito dos exercícios. Bem intencionado, quer imprimir realismo visual com a constante câmara ao ombro e o tom quase documental e resulta na maior parte das cenas. Pena que, em alguns cenários escuros e velozes, aquela técnica não ofereça ao espectador clarividência, mas sim, escuridão e confusão. A técnica de filmagem foi peculiar. As cenas foram rodadas sequencialmente, foi usada pouca maquilhagem e, sem poderem gozar de grandes intervalos, os actores passavam praticamente todo o tempo juntos no plateau. Diz Angelina Jolie que, na gravação do momento em que é dada a notícia sobre Daniel Pearl, seria impossível que todos não sofressem com isso já que tinham representado cada passo do episódio sem saltos no tempo. A câmara gravou e conseguiu passar ao espectador a credibilidade desejada. No que à narrativa diz respeito, é notória a condução por uma jornalista. São avaliados todos os lados da história, sem juízos de valor (dentro que parece aceitável, claro). Não há santos nem demónios. Há relatos. Verídicos retratos. É o espectador quem, em última instância, decide o que quer interpretar. História à parte, o grande trunfo do filme é Angelina Jolie. A actriz apresenta-se mais consistente do que nunca num difícil papel que, ainda por cima, se inspira numa figura viva: Mariane Pearl. É certo que a transformação física e a real gravidez da actriz ajudaram à entrada na personagem mas Angelina consegue dar-lhe a dimensão racional e o lado mais frágil com o realismo palpável que se pedia. Sem «ódio nem medo», tal como Mariane quis demonstrar. A mighty heart inaugura a temporada de Outono em Portugal entrando da melhor forma na lista de «filmes-que-têm-histórias-complexas-e-querem-ganhar-prémios». É uma pintura contemporânea com o que mais de actual há para dizer no que diz respeito a contos multiculturais. 

Os fantasmas de Goya: A Espanha de duas caras

Setembro 6, 2007 às 9:42 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Como já se tornou habitual em dia de estreias, aqui ficam as notas soltas sobre um dos filmes em cartaz. Andaram hoje pelo sítio que esta semana fez doze anos bem verdinhos.

Francisco de Goya y Lucientes. Espanhol, pintor de paisagens e artista do reino. Recriador de cenários dantescos quase censurados pela Inquisição espanhola mas que não andavam muito longe da imagem real. O filme de Milos Forman (autor de Voando sobre um ninho de cucos e Amadeus) liberta os “fantasmas” do pintor e os terrores de uma Espanha em grande agitação política, dividida entre a Igreja e as invasões napoleónicas.

Ines (Natalie Portman), a musa de Goya ( Stellan Sarksgaard) é detida pela Inquisição espanhola. Não é uma bruxa (como tantas não o eram), não cometeu qualquer ofensa (como tantos não tinham cometido) mas é acusada de heresia. Assim o era no país irmão do século XVIII. Acusações como “a ilustre senhora não comeu porco, logo pertence à herege classe dos judeus” eram o prato do dia e pareciam fazer todo o sentido para os altos responsáveis eclesiásticos. A família de Ines recorre à ajuda de Goya que, embora não fosse tido em boa consideração pela igreja, tinha amigos influentes (como o padre Lorenzo) e seria a única pessoa a conseguir tirá-la das masmorras. Tal como as primeiras pinturas de Goya, também a fita começa por ser colorida, burlesca e natural. No entanto, este retrato das paisagens, das tabernas e das famílias depressa dá lugar ao lado negro de uma Espanha amedrontada e oprimida, atenta a cada passo. Porque cada passo podia levar qualquer um ao “interrogatório” (a.k.a. tortura que levaria qualquer interrogado a confessar o que quer que fosse). A dirigir está Milos Forman. O nome é de peso e carrega o historial de nomeações para óscares e alguns outros galardões com Amadeus e Voando sobre um ninho de cucos. Aqui, regressa às reconstituições históricas detalhadas, oferecendo ao espectador personagens históricas de nome conhecido a cada momento (como tanto ele gosta). Há Goya, há o rei Carlos IV (Randy Quaid) e há uma rainha interpretada pela grandiosa Blanca Portillo. No entanto, a precisão e a beleza não chegam aos calcanhares do que o realizador conseguiu com a história de Mozart. Os figurantes não convencem e parecem tirar credibilidade à maioria dos cenários. Basta dizer que a atenção do espectador vai ser tomada da acção principal por várias vezes para se virar para as caras pouco credíveis que se passeiam nos arredores. No que diz respeito ao elenco, há nomes incontornáveis. Provavelmente os maiores responsáveis pela salvação do filme. Javier Bardem no papel de um padre que tanto se mostra moralista com pende, ele próprio, para uma heresia muito sexual. Stellan Sarksgaard como o melhor do filme, vestindo um pintor sensato e generoso que procura defender a sua inspiração maior. Natalie Portman cada vez mais revela a sua polivalência e, embora deixe que o seu duplo papel se revele exagerado, parece ganhar mais uma experiência interessante no seu curriculum. No todo, Os fantasmas de Goya acaba por ser desequilibrado. Quer contar um período muito longo na história e isso torna-o demasiado cheio de sub-enredos, sub-personagens e sub-cenários. Os personagens, ao quererem viajar até uns séculos atrás, acabam por se perder no tempo e por caricaturar em demasia algo que se devia revelar mais realista. Não deixa, contudo, de criar um retrato íntimo e interessante da arte e do pensamento de Goya, com direito a uma viagem pela sua obra e pelos seus males, e de pôr visível um país indeciso e hipócrita que se vendia ao que se lhe apresentava como mais benéfico.

Dois maridos num casamento de faz de conta

Agosto 30, 2007 às 6:37 pm | Publicado em Cinema, Estreias | 2 comentários

Das estreias desta semana só consegui ainda ver esta. O SAPO anda agitado, em maré de férias e muitos visionamentos têm ficado para trás. Ainda assim, e com a maior das boas vontades aqui vão algumas notas sobre Declaro-vos marido…e marido.

Parcialmente homofóbico, parcialmente defensor dos direitos homossexuais. Metade/metade. Alguns conseguidos momentos de humor, outros muito pouco aconselháveis. Declaro-vos marido…e marido é uma veloz corrida de gags (alguns que resultam muito bem e outros que nem por isso) que não conseguiu decidir-se por um ângulo e, por isso, dispara em todas as direcções possíveis com a descontracção de uma época sem papas na língua.

Dois bombeiros heterossexuais e machistas (primeiro estereótipo a querer fugir à própria ideia pré-concebida) entram num esquema vigário para poderem receber benefícios fiscais. Ele, Larry (Kevin James), pede ao outro, Chuck (Adam Sandler), que se case com ele por uma boa causa. Dada a estreita relação de amizade e depois de uma epifania entre a vida e a morte, Chuck decide dar descanso aos seus elevados níveis de testosterona e cede, embarcando numa farsa que irá tomar proporções dignas da comédia mais alucinada. Mas esperem…esta é uma comédia alucinada.

No decorrer do embuste surge a advogada Alex (Jessica Biel) que se deixa levar pela causa sem se aperceber do interesse do bombeiro Chuck (o eterno engano já muito retratado por essas comédias mundo a fora).

Quando recorre ao non-sense não moralista, o filme tem, de facto, piada. Jessica Biel, que quase certamente ainda se vai revelar melhor actriz do que os filmes que tem feito, conquista algumas passagens com frases de inspiração. Contudo, rapidamente cai no lugar comum da mulher cobiçada que entra em intimidades com o homem que ela própria toma por gay (não fugindo à tradicional cena da apalpadela para atestar veracidade).

Adam Sandler, já sabemos, consegue surpreender na comédia menos convencional mas quando se junta a tarefeiros o resultado não é geralmente bom. Kevin James, de que muitos se devem lembrar da série King of Queens e da interpretação ao lado de Will Smith em Hitch, é um bom exemplo no humor físico. Mostra-o aqui por uma ou outra vez, mas rapidamente se deixa levar pelas demonstrações de amor a Chuck muito pouco hilariantes. No fim de contas, os actores são mais um espelho das oscilações no filme: de hilariantes a muito frouxos.

O problema de Declaro-vos marido…e marido reside no facto de os argumentistas não conseguirem decidir se querem ser homofóbicos ou defensores dos direitos gay e, por isso, oscilam entre o humor mais machista e o mais feminista, sempre com pinças (não porque sejam meigos a fazê-lo mas porque seguem a lei do contraditório) deixando o espectador confuso e sem perceber bem onde está a ir a história (ou, na prática, em que momentos há-de rir).

Esperar-se-ia algo mais decidido de uma equipa de escritores que conta com o argumentista de Sideways. Talvez por ter sido escrito por uma “equipa” e não a título individual Alexander Payne não tenha conseguido impor o seu talento em maior medida do que nos escassos momentos altos da fita.

De Chuck e Larry falta referir que, como em muitas outras comédias com Sandler, são convidados alguns amigos/conhecidos para pequenos cameos. Daqui, há, pelo menos, duas participações a destacar.

Pela negativa, falemos de Rob Schneider (que poucos irão reconhecer) como o padre que consagra o matrimónio. O sotaque chinês numa capela em Las Vegas pouco mais consegue fazer do que arrancar ao espectador um ou outro sorriso. Pela positiva, vale a pena falar de Dave Mathews (sim, o músico) que, depois de uma brilhante intervenção num dos episódios de Dr. House, parece ter gostado da experiência e volta aqui (durante 15 segundos) como o empregado gay de uma loja de roupa.

Desequilibrado e alucinado, tal como os seus personagens, Declaro-vos marido…e marido está longe de ser um triunfo no humor mas consegue, ainda assim, ter alguns momentos de comédia que fazem com que este casamento consiga sobreviver.

Mysterious Skin: Dois murros no estômago daqueles tramados

Agosto 26, 2007 às 2:13 pm | Publicado em Cinema, Estreias | 1 Comentário

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A primeira pergunta que devemos fazer é porque é que Mysterious Skin chega às nossas salas com três anos de atraso (o filme é de 2004) mas rapidamente vamos lembrar-nos de que tal estratégia é prática comum por estas bandas.

Seguimos para a boa notícia: o que é facto é que estreou.

Mysterious Skin leva-nos até ao mundo podre da pedofilia e da prostituição numa linha “é-assim-que-isto-se-passa-e-não-como-vemos-nos-filmes”. É um filme, é certo, mas trata os personagens com a crueldade necessária que imaginamos passar-se na realidade.

Joseph Gordon-Levitt já tinha deixado de ser o miúdo do Terceiro calhar a contar do sol há algum tempo. Mysterious Skin confirma-o, salienta-o e coloca-o na nossa lista da próxima geração de grandes actores. Aqui surge-nos como uma ex-criança vítima de pedofilia, tornada num jovem adulto prostituto cheio de memórias recalcadas numa sociedade que começa a sentir na pele os perigos do HIV.

Brady Corbet é outro ex-miúdo que acredita ter sido raptado por seres de outro planeta porque não consegue recordar muita da sua infância.

Os dois vão cruzar-se num encontro libertador, filmado de uma forma inspirada e que, inevitavelmente, se revela um valente murro no estômago daqueles que nos deixam a pensar no filme durante o resto do dia.

Confesso que, a dada altura, a carga sexual começa a ser dispensável e chega a desviar a atenção do espectador da complexidade dos personagens. Ainda assim, acabo por não conseguir imaginar outra forma tão crua para mostrar o pretendido.

Fujam às outras estreias desta semana (Turistas e Licença para casar são totalmente dispensáveis) e espreitem este Mysterious Skin.

De facto, uma comédia muito fraquinha

Agosto 23, 2007 às 10:38 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Sou fã de Robin Williams. Sou ainda maior fã da versão americana de The Office (aqui entram quatro actores desse fantástico elenco). Contudo, mesmo algum talento pouco consegue fazer por esta história tremendamente fraquinha.

Na história das comédias românticas há triângulos amorosos para todos os gostos: homem, mulher, homem; homem, mulher, mulher; homem, mulher, trabalho. As combinações podiam encher esta página. Do que nunca alguém se tinha lembrado foi de do trio homem, mulher, padre (ou pelo menos, sendo o padre 100% devoto a Deus). Ben e Sadie querem subir ao altar mas primeiro terão de caminhar até à cruz a.k.a. fazer o curso do reverendo Frank, o prior mais agente secreto da história da igreja.

Como se conheceram, como se apaixonaram, quando decidiram morar juntos. Todos estes pormenores são isso mesmo: pormenores. Em Licença para casar a história de amor conta-se em cinco minutos, num jeito telegráfico, com os devidos clichés mas sem a demora do costume. O que interessa não é o percurso, é o grande dia. O dia em que todos os suores saltam para fora da roupa e em que as pernas parecem não ter forças para fazer aquilo para que foram criadas (andar claro). O dia do casamento é a meta que Ben e Sadie querem cruzar mas, para lá chegarem, têm de passar uma espécie de Licenciatura em Ciências do amor. O reitor é um padre que garante sucesso em todas as cerimónias que realiza mas que não facilita o trabalho a nenhum dos seus pupilos. Nada de sexo, muito diálogo e testes bem duros vão pôr à prova a mais forte das relações e comprovar se ela tem o que é preciso para durar até que a morte os separe. O filme de Ken Kwapis (que já andou pela televisão e pelo cinema, sempre com um pé na comédia) não inova no argumento e nas resoluções narrativas. É em quase tudo muito previsível e muito formatado para o género «em-casal-no-aconchego-de-uma-tarde-de-domingo». Os momentos de comédia não são os melhores e os problemas não são suficientemente grandes para tomarem essa digna designação. No entanto, e apesar de ser apenas mais um date movie com cenário cor-de-rosa, Licença para casar reúne alguns bons nomes que conseguem polir os mediocres papéis para os quais foram designados, deixando-os com um leve brilho que só eles lhes poderiam dar. Robin Williams é sempre Robin Williams. Não há mau filme que venha estragar o seu timing perfeito e a sua excentricidade na temperatura ideal. Depois, para os fãs da versão americana de The Office, o filme pode oferecer alguns momentos de prazer. O protagonista John Krasinski é um actor de talento a precisar de um maior empurrão no cinema já que, até à data, o seu estatuto não vai muito para além de estrela média no pequeno écrã. Também presentes em pequenos desempenhos estão Brian Baumgartner, Angela Kinsey e Mindy Kaling (todos empregados de escritório comandados por Steve Carell na série de televisão). A verdade é que consegue vislumbrar-se para todos eles um futuro promissor na comédia, talvez com projectos mais pessoais e aliciantes. Por agora, vão viajando pelo começo acidentado próprio da indústria, pouco adequado ao seu talento mas que, com o tempo, poderá dar lugar a um status quo mais consistente. Na outra ponta do balanço está Mandy Moore, sempre presa ao seu ar de adolescente popular e inocente que pouco convence como mulher em idade de casar. Em Licença para casar os momentos de humor não atingem o registo que se pretendia interessante/comovente. Contudo, não é preciso qualquer curso nem se impõe qualquer licença para assistir ao espectáculo de Robin Williams e à ascensão de alguns dos seus colegas nesta fita. O altar aguarda-os mesmo que não seja nesta paróquia.” 

Turistas: se eu fosse brasileira ficaria ofendida

Agosto 23, 2007 às 10:35 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Como já começa a tornar-se hábito, às quintas cá vos trago alguns pareceres deixados no estaminé habitual. Começo pelo primeiro filme americano filmado inteiramente no Brasil (é que este é o maior elogio que se lhe pode fazer).

O paraíso vira terror. Anos e anos de maus exemplos de cinema de terror serviram de exemplo. A casinha nova que afinal é assombrada, o novo amante que afinal é um assassino e, tal como aqui, o paraíso natural, virgem e inocente que, afinal, se torna no mais profundo e assustador inferno. Turistas (o título original é bem português) quer revelar um Brasil para lá de terceiro mundista, onde todos os que vão são mortos e o perigo não pára para descansar. O retrato é tão estereotipado quanto excessivo e os protagonistas também: todos louros, sexy e aventureiros. Cada um para ser o turista de sonho nas mãos do nativo carniceiro.

O imaginário da praia escondida com água azul turquesa e apenas um bar para matar a sede tem historial registado. Em Turistas, reúne-se a receita que, embora não signifique o caminho para a qualidade, é sinónimo de sucesso assegurado (financeiro, entenda-se). Jovens de corpos esbeltos, na sua maioria de cabelo louro e com percursos exóticos- vêm da América, da Inglaterra, da Austrália e da Suécia- juntam-se, acidentalmente e sem qualquer aviso prévio, no mais tropical dos destinos: o Brasil. O acidente acontece durante uma viagem que retrata os brasileiros da mesma forma inferior que Love Actually retratava os portugueses, deixando os passageiros do autocarro abandonados junto a uma praia escondida no meio do verde. Lá foi o autocarro encosta abaixo, culpa do condutor pouco civilizado, pouco higiénico e muito pouco educado.
Posto o problema, o cenário idílico é, depois das devidas festas e cenas mais quentes, trocado pelo cenário de suspense, bastante previsível, diga-se, e que culminará num cenário de algum terror, muito pouco aterrorizador, denote-se. A noite de folia acorda para um dia de medo, com meia dúzia de turistas ressacados, espalhados aleatoriamente pela praia depois de terem sido assaltados e envergando apenas a roupa que tinham no corpo. A partir daí, Turistas é um ciclo vicioso de beleza natural, momento ligeiramente romântico, pico de terror…e outra vez… beleza natural, momento ligeiramente romântico, pico de terror. Ganha pelo cenário (é o primeiro filme americano a ser inteiramente filmado no Brasil) mas perde pela perfeição física e enquadrada dos protagonistas que podiam bem desfilar no concurso de moda mais prestigiado. Vence no olhar comprometedor da câmara debaixo de água e dentro da floresta mas perde na imagem redutora que cria de um país inteiro sem se aperceber que o faz. E porque não chega, cria um assassino moralista que, sim, mata, mas acredita que o faz por uma boa causa. O realizador John Stockwel vê o cenário da forma correcta (visualmente) mas o cenário narrativo é, logo à partida, formatado, exacerbado e redundante com os muitos exemplos do cinema de terror pouco inspirado. Os actores não fazem mais do que encarnar o medo fútil que lhes é exigido e fazem-no bem, porque não há muito mais a fazer dentro dos personagens pouco complexos da fita.
Mesmo que cinco minutos depois do seu primeiro plano, já esteja prensada numa qualquer ravina, e praticamente não fale durante a sua aparição, não pode este artigo terminar sem antes salientar a presença da portuguesa Olga Diegues no papel de uma sueca. Esta aventura numa praia que podia bem ser uma das nossas quer servir o propósito para que foi criada, e não engana ninguém. Se não sentirem vontade de reter qualquer outra coisa de Turistas podem, pelo menos, pensar de forma positiva e recordar o momento em que uma turista australiana lembra a um viajante americano que no Brasil não se fala espanhol, mas sim português.”

A última legião: para ficar no sossego do lar longe desta tentativa de épico

Agosto 16, 2007 às 6:33 pm | Publicado em Cinema, Estreias | 3 comentários

Quanto a este, não há qualquer suspense para criar. Redondamente, francamente e epicamente fraco. Mais umas linhas publicadas ontem:

É oficial: os épicos deixaram de estar em voga. Já há algum tempo que essa realidade era perceptível mas, com experiências como esta, a tendência não podia ser outra. A última legião é uma tentativa de cruzamento entre épicos que, em última análise, acaba apenas por ser uma ofensa às figuras históricas que envolve e aos bons actores que, sem como nem porquê, aceitaram participar nela. Por esta altura, o rei Artur dá voltas no túmulo e os exércitos romanos remexem a terra onde estão com esperança de poderem voltar à vida para limpar o seu nome.

Vamos tentar descrever A última legião através de associações sem com isso pretender ofender os objectos de comparação que nenhuma relação têm com este filme. Se cruzarmos Rei Artur com O Senhor dos Anéis e colocarmos uma pitadinha de O Gladiador chegamos ao que parece ter sido a intenção. Se juntássemos mais umas lutas ao Código Da Vinci (versão cinematográfica) obteríamos o que mais se assemelha a este produto final. Sintetizemos a história. O império romano está à beira do colapso. O imperador Rómulo Augusto é uma criança com cerca de um metro e meio (Thomas Sangster) e os seus defensores são um soldado romântico (Colin Firth nunca poderia deixar de ser romântico) e um filósofo/lutador/feiticeiro (interpretado por um Ben Kingsley em maré de más escolhas). Juntos e com a ajuda de uma guerreira indiana (Aishwarya Rai) que não faz mais do que ser a babe do filme, vão em busca de uma espada milenar (o que fizeram à lenda da Excalibur!) e do último reduto do exército romano na longínqua Britânia, ou a versão clássica do Reino Unido. O argumento é tão desinspirado quanto malicioso já que, claramente, não tem outro objectivo senão obter receitas de bilheteira. Os cenários são pobres e os diálogos ainda mais. A realização é apressada e pouco cuidada e o guarda-roupa traz à memória as lojas de Carnaval no Chiado lá pelo mês de Fevereiro. A última legião é um filme de tareia sem fundo de interesse, com passagens sentimentais mal sentidas e sem perícia histórica nem valor dramático. O que poderá deixar o espectador, e os falecidos citados, ainda mais desiludidos é o facto de não ser claro o porquê de nomes como os do marco cinematográfico Ben Kingsley, do ícone romântico Colin Firth e até do pequeno Sangster que vimos nascer em O amor acontece fazem junto a uma fita tão desprovida de alma quanto esta.

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