Dois maridos num casamento de faz de conta

Agosto 30, 2007 às 6:37 pm | Publicado em Cinema, Estreias | 2 comentários

Das estreias desta semana só consegui ainda ver esta. O SAPO anda agitado, em maré de férias e muitos visionamentos têm ficado para trás. Ainda assim, e com a maior das boas vontades aqui vão algumas notas sobre Declaro-vos marido…e marido.

Parcialmente homofóbico, parcialmente defensor dos direitos homossexuais. Metade/metade. Alguns conseguidos momentos de humor, outros muito pouco aconselháveis. Declaro-vos marido…e marido é uma veloz corrida de gags (alguns que resultam muito bem e outros que nem por isso) que não conseguiu decidir-se por um ângulo e, por isso, dispara em todas as direcções possíveis com a descontracção de uma época sem papas na língua.

Dois bombeiros heterossexuais e machistas (primeiro estereótipo a querer fugir à própria ideia pré-concebida) entram num esquema vigário para poderem receber benefícios fiscais. Ele, Larry (Kevin James), pede ao outro, Chuck (Adam Sandler), que se case com ele por uma boa causa. Dada a estreita relação de amizade e depois de uma epifania entre a vida e a morte, Chuck decide dar descanso aos seus elevados níveis de testosterona e cede, embarcando numa farsa que irá tomar proporções dignas da comédia mais alucinada. Mas esperem…esta é uma comédia alucinada.

No decorrer do embuste surge a advogada Alex (Jessica Biel) que se deixa levar pela causa sem se aperceber do interesse do bombeiro Chuck (o eterno engano já muito retratado por essas comédias mundo a fora).

Quando recorre ao non-sense não moralista, o filme tem, de facto, piada. Jessica Biel, que quase certamente ainda se vai revelar melhor actriz do que os filmes que tem feito, conquista algumas passagens com frases de inspiração. Contudo, rapidamente cai no lugar comum da mulher cobiçada que entra em intimidades com o homem que ela própria toma por gay (não fugindo à tradicional cena da apalpadela para atestar veracidade).

Adam Sandler, já sabemos, consegue surpreender na comédia menos convencional mas quando se junta a tarefeiros o resultado não é geralmente bom. Kevin James, de que muitos se devem lembrar da série King of Queens e da interpretação ao lado de Will Smith em Hitch, é um bom exemplo no humor físico. Mostra-o aqui por uma ou outra vez, mas rapidamente se deixa levar pelas demonstrações de amor a Chuck muito pouco hilariantes. No fim de contas, os actores são mais um espelho das oscilações no filme: de hilariantes a muito frouxos.

O problema de Declaro-vos marido…e marido reside no facto de os argumentistas não conseguirem decidir se querem ser homofóbicos ou defensores dos direitos gay e, por isso, oscilam entre o humor mais machista e o mais feminista, sempre com pinças (não porque sejam meigos a fazê-lo mas porque seguem a lei do contraditório) deixando o espectador confuso e sem perceber bem onde está a ir a história (ou, na prática, em que momentos há-de rir).

Esperar-se-ia algo mais decidido de uma equipa de escritores que conta com o argumentista de Sideways. Talvez por ter sido escrito por uma “equipa” e não a título individual Alexander Payne não tenha conseguido impor o seu talento em maior medida do que nos escassos momentos altos da fita.

De Chuck e Larry falta referir que, como em muitas outras comédias com Sandler, são convidados alguns amigos/conhecidos para pequenos cameos. Daqui, há, pelo menos, duas participações a destacar.

Pela negativa, falemos de Rob Schneider (que poucos irão reconhecer) como o padre que consagra o matrimónio. O sotaque chinês numa capela em Las Vegas pouco mais consegue fazer do que arrancar ao espectador um ou outro sorriso. Pela positiva, vale a pena falar de Dave Mathews (sim, o músico) que, depois de uma brilhante intervenção num dos episódios de Dr. House, parece ter gostado da experiência e volta aqui (durante 15 segundos) como o empregado gay de uma loja de roupa.

Desequilibrado e alucinado, tal como os seus personagens, Declaro-vos marido…e marido está longe de ser um triunfo no humor mas consegue, ainda assim, ter alguns momentos de comédia que fazem com que este casamento consiga sobreviver.

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A tabelinha do mês

Agosto 30, 2007 às 5:42 pm | Publicado em Cinema, Tabela de Estreias | Deixe um comentário

Aqui vai a digna tabela do Cinema Notebook e amigos referente ao mês de Agosto. O realizador do mês fez-me ter insónias. É que ter de escolher um filme de Tarantino é como ter de optar entre amêijoas e sapateira (ambas as iguarias são do mais alto nível). Depois desta estupidificante comparação, aqui fica a dita.

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A respeito de Veneza

Agosto 29, 2007 às 9:02 pm | Publicado em Cinema, Festivais, Notícias | Deixe um comentário

Hoje impõem-se algumas notas sobre Itália. Foram estas que publiquei no sítio do costume.

Aos 75 anos, o festival de cinema de Veneza está amadurecido e mostra-se diversificado. 22 filmes de vários países vão a concurso pelo Leão de ouro e 35 mais fazem prova do que de melhor se fez no cinema no ano que corre. Pelo meio, entram em cena dois portugueses e homenageiam-se carreiras: uma a título póstumo (a de Michelangelo Antonioni), outra ainda aberta a muitas mais criações (a de Tim Burton). A novidade de que todos falam vem, no entanto, sob a forma de um novo prémio: O Queer Lion ou, na possível tradução portuguesa, o Leão homossexual.

As contas certas dão-lhe 75 anos de idade mas com alguns anos de atribuladas e históricas interrupções (como aconteceu durante a II Guerra Mundial), a Mostra internacional de cinema de Veneza vai na 64ª edição. Este ano, o número de estreias mundiais é maior do que nunca com todos os olhos virados para a exibição de fitas de realizadores como Ang Lee, Woddy Allen, Paul Haggis, Brian de Palma e Ken Loach não esquecendo que a concurso está o português João Canijo e o seu Mal nascida.

São os filmes britânicos e norte-americanos que comandam no cartaz mas a gosto do director, Marco Muller, foram também incluídos na selecção alguns filmes asiáticos. Debrucemo-nos na lista multicultural. Depois do oscarizado Brokeback Mountain, Ang Lee regressa com outra história de amor sofrida em Lust, Caution, um sério candidato ao prémio máximo do festival e quem sabe se a outras temporadas de cerimónias. Também o veterano Brian de Palma mostra o seu Redacted e o argumentista/realizador Paul Haggis regressa aos dramas intrusivos com the In the valley of Elah, a história de um pai que suporta o fardo de ver o filho partir para a guerra. Com estes dois últimos filmes, marca-se uma das linhas do festival: a da fotografia intensa da presença americana no Iraque.

Fora de concurso, Woody Allen promete chamar a atenção para o seu mais recente Cassandra’s Dream, história que conta com Ewan McGregor e Colin Farrell, numa equipa algo inesperada para o cinema do realizador. Também presente na selecção extra-concurso estará a actriz fétiche de Allen, Scarlett Johansson mas, desta feita, no filme de Robert Pulcini, The nanny diaries.

Quanto à presença portuguesa, ela é dupla. Há um ano, Manoel de Oliveira estreava Belle Toujours em Veneza. Um ano depois, aos 99 de idade, a produção não pára e o realizador mais velho do mundo continua a fazer questão de que Portugal esteja representado. Chama-se Cristovão Colombo – o Enigma, será exibido fora de concurso e, para além da direcção de Oliveira, conta com a sua participação e da sua mulher no elenco. Já João Canijo tem motivos para estar ansioso. A sua película Mal nascida, narrativa que viaja até às casas de alterne portuguesas, está sujeita à avaliação do júri. 

Todos os filmes a concurso aguardam impacientes pelo momento da entrega do prémio mais desejado mas este ano há uma novidade interessante na lista de galardões. Queer Lion (“Leão homossexual), é o nome da recompensa que será oferecida ao melhor filme que se debruce sobre temáticas ligadas à homossexualidade ou, condição mínima, que tenha personagens gay. Obrigatórias são também as homenagens a carreiras consagradas e, este ano, são várias as que tiveram direito a honras.

Tim Burton, que certamente ainda oferecerá à sétima arte muitas das suas fábulas fantásticas de cenários encantados, vai receber o leão de ouro pela sua carreira. Michelangelo Antonioni, cineasta da casa recentemente falecido, vai ser homenageado a título póstumo com a exibição de três dos seus filmes (Limpeza Urbana, Vertigine e Lo Sguardo Di Michelangelo).

E já que estamos na Itália, nada mais adequado do que recuperar o cinema western spaghetti numa mostra apadrinhada por Quentin Tarantino que conta com a exibição de O Cavalo de Ferro de John Ford e de Amanhecer Sangrento de Budd Boetticher, entre muitos outros.

O festival de cinema de Veneza decorre até dia 8 de Setembro e assegura no desfile pela passadeira vermelha nomes como Brad Pitt, George Clooney, Richard Gere, Cate Blanchett, Vanessa Redgrave, Scarlett Johansson, Charlize Theron e Susan Sarandon.

Frases à séria…

Agosto 28, 2007 às 5:29 pm | Publicado em Cinema | Deixe um comentário

Há uns dias, enquanto revirava a FNAC do Colombo encontrei uma coisa maravilhosa: o belo guião de Death Proof.

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Não o trouxe comigo mas agora os remorsos assaltam-me. Acho que vou lá voltar. Recordemos um Stuntman Mike convicto:

“The woods are lovely dark and deep,
and I have promises to keep
and miles to go before I sleep.
Did you hear me, Butterfly?
Miles to go before you sleep.”

E por falar em The Darjeeling Limited…

Agosto 28, 2007 às 4:05 pm | Publicado em Cinema, trailers | Deixe um comentário

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Aqui fica o trailer. Três irmãos (Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman) partem numa viagem pela Índia na esperança de reatarem laços perdidos há muito.

De caminho, o Elite deixa os desejos de melhoras para Owen Wilson que, segundo consta, está…assim…quase que…maluquinho.

Um desfile cinematográfico, tal como na passerelle

Agosto 28, 2007 às 3:53 pm | Publicado em Cinema | Deixe um comentário

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O FirstShowing.net decidiu criar uma espécie de catálogo Outono/Inverno dos filmes mais aguardados para a próxima temporada.

O Verão está no fim. Esperemos que o mesmo aconteça com a silly season e, por essa razão, é hora de listar o que de bom aí vem.

Nesta lista estão 38 filmes com estreia prevista para os próximos meses (nos EUA, entenda-se) e, sem dúvida, bastante apetecíveis.

Alguns já foram alvo de atenções por aqui como The Savages, Shoot ‘em up e 3:10 to Yuma mas há muitos outros para descobrir como The assassinatio of Jesse James by the coward Robert Ford com Brad Pitt e The Darjeeling Limited de Wes Anderson (curiosamente estes dois últimos vão ser apresentados no festival de Veneza de que falarei aqui amanhã).

Podem folhear o catálogo aqui.

MOTELx: Cinema de terror no São Jorge

Agosto 26, 2007 às 2:27 pm | Publicado em Cinema, Festivais | Deixe um comentário

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Se estiverem por Lisboa, a partir do próximo dia 5 de Setembro podem ir a uma sessão de cinema diferente. Vai instalar-se no São Jorge o MOTELx, o primeiro festival internacional de cinema de terror de Lisboa.

O festival não pretende ser uma competição. Apelida-se de mostra e traz fitas de nomes como John Carpenter, Dario Argento, Guillermo del Toro, Ivan Cardoso e Takashi Miike.

De 5 a 9 de Setembro, ali para os lados da Avenida da Liberdade.

Mysterious Skin: Dois murros no estômago daqueles tramados

Agosto 26, 2007 às 2:13 pm | Publicado em Cinema, Estreias | 1 Comentário

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A primeira pergunta que devemos fazer é porque é que Mysterious Skin chega às nossas salas com três anos de atraso (o filme é de 2004) mas rapidamente vamos lembrar-nos de que tal estratégia é prática comum por estas bandas.

Seguimos para a boa notícia: o que é facto é que estreou.

Mysterious Skin leva-nos até ao mundo podre da pedofilia e da prostituição numa linha “é-assim-que-isto-se-passa-e-não-como-vemos-nos-filmes”. É um filme, é certo, mas trata os personagens com a crueldade necessária que imaginamos passar-se na realidade.

Joseph Gordon-Levitt já tinha deixado de ser o miúdo do Terceiro calhar a contar do sol há algum tempo. Mysterious Skin confirma-o, salienta-o e coloca-o na nossa lista da próxima geração de grandes actores. Aqui surge-nos como uma ex-criança vítima de pedofilia, tornada num jovem adulto prostituto cheio de memórias recalcadas numa sociedade que começa a sentir na pele os perigos do HIV.

Brady Corbet é outro ex-miúdo que acredita ter sido raptado por seres de outro planeta porque não consegue recordar muita da sua infância.

Os dois vão cruzar-se num encontro libertador, filmado de uma forma inspirada e que, inevitavelmente, se revela um valente murro no estômago daqueles que nos deixam a pensar no filme durante o resto do dia.

Confesso que, a dada altura, a carga sexual começa a ser dispensável e chega a desviar a atenção do espectador da complexidade dos personagens. Ainda assim, acabo por não conseguir imaginar outra forma tão crua para mostrar o pretendido.

Fujam às outras estreias desta semana (Turistas e Licença para casar são totalmente dispensáveis) e espreitem este Mysterious Skin.

De facto, uma comédia muito fraquinha

Agosto 23, 2007 às 10:38 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Sou fã de Robin Williams. Sou ainda maior fã da versão americana de The Office (aqui entram quatro actores desse fantástico elenco). Contudo, mesmo algum talento pouco consegue fazer por esta história tremendamente fraquinha.

Na história das comédias românticas há triângulos amorosos para todos os gostos: homem, mulher, homem; homem, mulher, mulher; homem, mulher, trabalho. As combinações podiam encher esta página. Do que nunca alguém se tinha lembrado foi de do trio homem, mulher, padre (ou pelo menos, sendo o padre 100% devoto a Deus). Ben e Sadie querem subir ao altar mas primeiro terão de caminhar até à cruz a.k.a. fazer o curso do reverendo Frank, o prior mais agente secreto da história da igreja.

Como se conheceram, como se apaixonaram, quando decidiram morar juntos. Todos estes pormenores são isso mesmo: pormenores. Em Licença para casar a história de amor conta-se em cinco minutos, num jeito telegráfico, com os devidos clichés mas sem a demora do costume. O que interessa não é o percurso, é o grande dia. O dia em que todos os suores saltam para fora da roupa e em que as pernas parecem não ter forças para fazer aquilo para que foram criadas (andar claro). O dia do casamento é a meta que Ben e Sadie querem cruzar mas, para lá chegarem, têm de passar uma espécie de Licenciatura em Ciências do amor. O reitor é um padre que garante sucesso em todas as cerimónias que realiza mas que não facilita o trabalho a nenhum dos seus pupilos. Nada de sexo, muito diálogo e testes bem duros vão pôr à prova a mais forte das relações e comprovar se ela tem o que é preciso para durar até que a morte os separe. O filme de Ken Kwapis (que já andou pela televisão e pelo cinema, sempre com um pé na comédia) não inova no argumento e nas resoluções narrativas. É em quase tudo muito previsível e muito formatado para o género «em-casal-no-aconchego-de-uma-tarde-de-domingo». Os momentos de comédia não são os melhores e os problemas não são suficientemente grandes para tomarem essa digna designação. No entanto, e apesar de ser apenas mais um date movie com cenário cor-de-rosa, Licença para casar reúne alguns bons nomes que conseguem polir os mediocres papéis para os quais foram designados, deixando-os com um leve brilho que só eles lhes poderiam dar. Robin Williams é sempre Robin Williams. Não há mau filme que venha estragar o seu timing perfeito e a sua excentricidade na temperatura ideal. Depois, para os fãs da versão americana de The Office, o filme pode oferecer alguns momentos de prazer. O protagonista John Krasinski é um actor de talento a precisar de um maior empurrão no cinema já que, até à data, o seu estatuto não vai muito para além de estrela média no pequeno écrã. Também presentes em pequenos desempenhos estão Brian Baumgartner, Angela Kinsey e Mindy Kaling (todos empregados de escritório comandados por Steve Carell na série de televisão). A verdade é que consegue vislumbrar-se para todos eles um futuro promissor na comédia, talvez com projectos mais pessoais e aliciantes. Por agora, vão viajando pelo começo acidentado próprio da indústria, pouco adequado ao seu talento mas que, com o tempo, poderá dar lugar a um status quo mais consistente. Na outra ponta do balanço está Mandy Moore, sempre presa ao seu ar de adolescente popular e inocente que pouco convence como mulher em idade de casar. Em Licença para casar os momentos de humor não atingem o registo que se pretendia interessante/comovente. Contudo, não é preciso qualquer curso nem se impõe qualquer licença para assistir ao espectáculo de Robin Williams e à ascensão de alguns dos seus colegas nesta fita. O altar aguarda-os mesmo que não seja nesta paróquia.” 

Turistas: se eu fosse brasileira ficaria ofendida

Agosto 23, 2007 às 10:35 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Como já começa a tornar-se hábito, às quintas cá vos trago alguns pareceres deixados no estaminé habitual. Começo pelo primeiro filme americano filmado inteiramente no Brasil (é que este é o maior elogio que se lhe pode fazer).

O paraíso vira terror. Anos e anos de maus exemplos de cinema de terror serviram de exemplo. A casinha nova que afinal é assombrada, o novo amante que afinal é um assassino e, tal como aqui, o paraíso natural, virgem e inocente que, afinal, se torna no mais profundo e assustador inferno. Turistas (o título original é bem português) quer revelar um Brasil para lá de terceiro mundista, onde todos os que vão são mortos e o perigo não pára para descansar. O retrato é tão estereotipado quanto excessivo e os protagonistas também: todos louros, sexy e aventureiros. Cada um para ser o turista de sonho nas mãos do nativo carniceiro.

O imaginário da praia escondida com água azul turquesa e apenas um bar para matar a sede tem historial registado. Em Turistas, reúne-se a receita que, embora não signifique o caminho para a qualidade, é sinónimo de sucesso assegurado (financeiro, entenda-se). Jovens de corpos esbeltos, na sua maioria de cabelo louro e com percursos exóticos- vêm da América, da Inglaterra, da Austrália e da Suécia- juntam-se, acidentalmente e sem qualquer aviso prévio, no mais tropical dos destinos: o Brasil. O acidente acontece durante uma viagem que retrata os brasileiros da mesma forma inferior que Love Actually retratava os portugueses, deixando os passageiros do autocarro abandonados junto a uma praia escondida no meio do verde. Lá foi o autocarro encosta abaixo, culpa do condutor pouco civilizado, pouco higiénico e muito pouco educado.
Posto o problema, o cenário idílico é, depois das devidas festas e cenas mais quentes, trocado pelo cenário de suspense, bastante previsível, diga-se, e que culminará num cenário de algum terror, muito pouco aterrorizador, denote-se. A noite de folia acorda para um dia de medo, com meia dúzia de turistas ressacados, espalhados aleatoriamente pela praia depois de terem sido assaltados e envergando apenas a roupa que tinham no corpo. A partir daí, Turistas é um ciclo vicioso de beleza natural, momento ligeiramente romântico, pico de terror…e outra vez… beleza natural, momento ligeiramente romântico, pico de terror. Ganha pelo cenário (é o primeiro filme americano a ser inteiramente filmado no Brasil) mas perde pela perfeição física e enquadrada dos protagonistas que podiam bem desfilar no concurso de moda mais prestigiado. Vence no olhar comprometedor da câmara debaixo de água e dentro da floresta mas perde na imagem redutora que cria de um país inteiro sem se aperceber que o faz. E porque não chega, cria um assassino moralista que, sim, mata, mas acredita que o faz por uma boa causa. O realizador John Stockwel vê o cenário da forma correcta (visualmente) mas o cenário narrativo é, logo à partida, formatado, exacerbado e redundante com os muitos exemplos do cinema de terror pouco inspirado. Os actores não fazem mais do que encarnar o medo fútil que lhes é exigido e fazem-no bem, porque não há muito mais a fazer dentro dos personagens pouco complexos da fita.
Mesmo que cinco minutos depois do seu primeiro plano, já esteja prensada numa qualquer ravina, e praticamente não fale durante a sua aparição, não pode este artigo terminar sem antes salientar a presença da portuguesa Olga Diegues no papel de uma sueca. Esta aventura numa praia que podia bem ser uma das nossas quer servir o propósito para que foi criada, e não engana ninguém. Se não sentirem vontade de reter qualquer outra coisa de Turistas podem, pelo menos, pensar de forma positiva e recordar o momento em que uma turista australiana lembra a um viajante americano que no Brasil não se fala espanhol, mas sim português.”

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