Turistas: se eu fosse brasileira ficaria ofendida

Agosto 23, 2007 às 10:35 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Como já começa a tornar-se hábito, às quintas cá vos trago alguns pareceres deixados no estaminé habitual. Começo pelo primeiro filme americano filmado inteiramente no Brasil (é que este é o maior elogio que se lhe pode fazer).

O paraíso vira terror. Anos e anos de maus exemplos de cinema de terror serviram de exemplo. A casinha nova que afinal é assombrada, o novo amante que afinal é um assassino e, tal como aqui, o paraíso natural, virgem e inocente que, afinal, se torna no mais profundo e assustador inferno. Turistas (o título original é bem português) quer revelar um Brasil para lá de terceiro mundista, onde todos os que vão são mortos e o perigo não pára para descansar. O retrato é tão estereotipado quanto excessivo e os protagonistas também: todos louros, sexy e aventureiros. Cada um para ser o turista de sonho nas mãos do nativo carniceiro.

O imaginário da praia escondida com água azul turquesa e apenas um bar para matar a sede tem historial registado. Em Turistas, reúne-se a receita que, embora não signifique o caminho para a qualidade, é sinónimo de sucesso assegurado (financeiro, entenda-se). Jovens de corpos esbeltos, na sua maioria de cabelo louro e com percursos exóticos- vêm da América, da Inglaterra, da Austrália e da Suécia- juntam-se, acidentalmente e sem qualquer aviso prévio, no mais tropical dos destinos: o Brasil. O acidente acontece durante uma viagem que retrata os brasileiros da mesma forma inferior que Love Actually retratava os portugueses, deixando os passageiros do autocarro abandonados junto a uma praia escondida no meio do verde. Lá foi o autocarro encosta abaixo, culpa do condutor pouco civilizado, pouco higiénico e muito pouco educado.
Posto o problema, o cenário idílico é, depois das devidas festas e cenas mais quentes, trocado pelo cenário de suspense, bastante previsível, diga-se, e que culminará num cenário de algum terror, muito pouco aterrorizador, denote-se. A noite de folia acorda para um dia de medo, com meia dúzia de turistas ressacados, espalhados aleatoriamente pela praia depois de terem sido assaltados e envergando apenas a roupa que tinham no corpo. A partir daí, Turistas é um ciclo vicioso de beleza natural, momento ligeiramente romântico, pico de terror…e outra vez… beleza natural, momento ligeiramente romântico, pico de terror. Ganha pelo cenário (é o primeiro filme americano a ser inteiramente filmado no Brasil) mas perde pela perfeição física e enquadrada dos protagonistas que podiam bem desfilar no concurso de moda mais prestigiado. Vence no olhar comprometedor da câmara debaixo de água e dentro da floresta mas perde na imagem redutora que cria de um país inteiro sem se aperceber que o faz. E porque não chega, cria um assassino moralista que, sim, mata, mas acredita que o faz por uma boa causa. O realizador John Stockwel vê o cenário da forma correcta (visualmente) mas o cenário narrativo é, logo à partida, formatado, exacerbado e redundante com os muitos exemplos do cinema de terror pouco inspirado. Os actores não fazem mais do que encarnar o medo fútil que lhes é exigido e fazem-no bem, porque não há muito mais a fazer dentro dos personagens pouco complexos da fita.
Mesmo que cinco minutos depois do seu primeiro plano, já esteja prensada numa qualquer ravina, e praticamente não fale durante a sua aparição, não pode este artigo terminar sem antes salientar a presença da portuguesa Olga Diegues no papel de uma sueca. Esta aventura numa praia que podia bem ser uma das nossas quer servir o propósito para que foi criada, e não engana ninguém. Se não sentirem vontade de reter qualquer outra coisa de Turistas podem, pelo menos, pensar de forma positiva e recordar o momento em que uma turista australiana lembra a um viajante americano que no Brasil não se fala espanhol, mas sim português.”

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