Bug: Uma infestação de insectos aborrecidos

Julho 26, 2007 às 4:48 pm | Publicado em Cinema, Estreias | Deixe um comentário

Para além da estreia de peso desta semana, deixo-vos algumas notas sobre Bug, o filme do realizador septuagenário de O Exorcista.

“Bug é a história de uma existência esquizofrénica, um sufoco encarnado por insectos de todos os tipos e com personalidade própria. Os que vão guiados pelo nome do realizador (William Friedkin, que dirigiu O Exorcista) ou pelo aspecto minimamente aterrorizante do trailer, fiquem esclarecidos. Bug é um thriller psicológico sobre fragilidade e demência, não é um filme de terror dos que fazem dar saltos na cadeira. Insectos, paranóia e uma história claustrofóbica que, para muitos, pode ser mais aterrorizante do que qualquer filme de terror.

Agnes White (Ashley Judd) é uma mulher solitária de sotaque sulista que vive aterrorizada pelo ex-marido com tendências abusivas recém libertado da prisão. Quando dá de caras com um possível aconchego não hesita em se entregar. Talvez depressa de mais, antes de conhecer os insectos.

O homem, Peter Evans (Michael Shannon), entra timidamente na sua casa, apresentado por uma amiga, e rapidamente (em demasia para o ritmo que seria o realista) conquista a confiança de Agnes. É a carência da personagem principal e a sua insegurança que a levam a apaixonar-se e confiar, mesmo sem grande segurança naquele homem que insiste em não revelar o seu passado. Até ao dia em que começam a aparecer os insectos…

Pragas, infestações, obsessões pelos pequenos bicharocos. De tal modo que a existência do casal passa a centrar-se naquele medo ou repulsa. Os actores fazem o que lhes é pedido e não desiludem. A reflexão subjacente ao argumento (a dos limites do real) é um tema interessante mas a forma circular e claustrofóbica como o filme funciona parece não convencer. O que não está à altura é este rapidíssimo crescente da paranóia de um veterano de guerra que, no seu exagero e na sua velocidade, acaba por se apresentar pouco credível. Nem as boas representações conseguem fazer algo quanto a isso.

Ashley Judd, está de volta num papel bastante diferente do habitual, de ar gasto, usado e com alguns momentos de sofrimento bem retratados. A mulher que sofre abusos do marido encontra aqui uma forma de combate para além do auto-convencimento e das linhas telefónicas de apoio: um novo parceiro para a proteger. Michael Shannon, o parceiro, embarca numa viagem alucinogénica, transfigurada e muito pouco acolhedora, fruto de um trabalho muito físico.

Bug não é nem um filme de terror, nem um filme de suspense. Quer ser uma reflexão sobre os limites da confiança e as fronteiras entre o real e o surrealista. No entanto, deixa descobrir tudo quase ao primeiro relance e sufoca-nos à medida que os insectos vão aumentando.

Talvez a intenção tenha sido essa: pintar uma fixação que, em última análise, é completamente destrutiva mas a verdade é que nenhum espectador tolera tanto tempo de uma micronarrativa que não consegue crescer para além de um retrato fechado em si mesmo, circular e perturbador.

É uma tarefa árdua descrever Bug. A sua definição não é estanque e pouco se pode revelar para que não se estraguem surpresas que já por si são pouco surpreendentes. O que se pode dizer é que Bug não é um filme sobre insectos mas, em certas alturas, temos vontade de o exterminar. Para o verem, tentem centrar-se na reflexão que dali se pode retirar já que é, sem dúvida, o mais sumarento que a fita tem.”

Textinho escrito pela menina para o sítio do costume.

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