Death Proof: Quando o mau se torna excelente

Julho 19, 2007 às 7:35 pm | Publicado em Cinema, Estreias | 3 comentários

Agora sim, as coisas que hoje disse aqui sobre o novo filme do mestre Tarantino. A ideia é homenagear/parodiar o mau e é assim que a partir desse mau ele fez algo sublime. Aprendamos todos. Não é para todos os gostos mas o meu está 100% conquistado.

“Quentin Tarantino, o mestre das homenagens/paródias está de volta. Separou, alargou e individualizou um filme sobre um duplo de cinema que mata por prazer com o seu carro «À prova de morte». O resto é a faceta feminista de Tarantino a dar o habitual protagonismo às mulheres kick ass numa película gasta com cortes propositados e erros de raccord intencionais. O resultado não é um filme, é uma experiência sensorial obrigatória. Não é o seu melhor mas mesmo o seu menor é sublime. Do que não há dúvidas é de que não é fácil conter as gargalhadas perante o filme mais hilariante que já fez.

O que é podemos esperar de Quentin Tarantino? Obviamente tudo. De filmes sobre gangsters (que têm sempre de alguma forma um papel garantido), a western spaghettis, passando por fitas de samurais, sempre com bandas sonoras paradoxais escolhidas a dedo, tudo vale quando se trata deste senhor. Fosse qualquer outro e desconfiaríamos da qualidade mas ele, o homem que tudo consegue misturar com a paixão que só ele sabe ter, é marca garantida de que, o que quer que saia do seu olhar, terá inevitavelmente um lugar nos livros de cinema. Em À prova de morte, reuniu um Kurt Russel quase esquecido mas renascido, um elenco feminino de luxo e alguns dos duplos(as) mais famosos do mundo para porem em marcha a sua homenagem aos filmes de série Z que enchiam as salas de cinema americanas nos anos 70 e que encheram a juventude do director.

Stuntman Mike (sim, o título tem de preceder o nome) é um duplo em pré-reforma que usa o seu carro preto «À prova de morte» para aterrorizar donzelas delicadas (ou não tanto). Com aterrorizar entenda-se chacinar. Quanto às mulheres, que se sabe que Tarantino nunca relega para segundo plano, surgem, mais uma vez, como as verdadeiras protagonistas sempre com a mesma postura que ele lhes gosta de atribuir: «somos-sensuais-e-elegantes-mas-partimos-tudo-quando-nos-chega-a-mostarda-ao-nariz». Aqui, os retratos pretenderam ser os das armas femininas. Do elenco fazem parte, entre outras, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sidney Poitier (a filha, não o pai), Tracie Thoms e Zoe Bell (a dupla de Uma Thurman em Kill Bill a fazer dela própria, uma mulher impossível de assustar). Algumas, como a brilhante Arlene/Butterfly (Vanessa Ferlito) usam a sedução e protagonizam alguns momentos meio eróticos acompanhados de música slow-dance e de dança do tipo que se faz ao colo (mais uma marca típica do filme «chunga»). Há também as que não temem qualquer desafio e desafiam a própria morte. Não deixem passar despercebida a jovem Mary Elizabeth Winstead que aqui faz o seu primeiro grande papel na pele de uma actriz que não prima pela inteligência.

São elas a alma, o mote e quem parece dar inspiração à mente criativa. Não se deixem enganar pelo nome do filme ou pelo seu fio condutor apoiado no assassino. Esses são apenas pretextos para um espectáculo em que as estrelas são as mulheres.

Dois amigos à volta de um conceito

Quase que conseguimos imaginar Quentin Tarantino junto à mesa do diner tipicamente americano com o tradicional banco vermelho e uma jukebox em pano de fundo em conversa com o seu amigo Robert Rodriguez, este último sempre acompanhado do chapéu de cowboy. No diálogo algo semelhante a isto se terá passado: «E se nos juntássemos e criássemos uma homenagem aos filmes Grindhouse* a que assistíamos quando éramos novos? Tu fazes uma parte e eu outra…».

Assim foi. Grindhouse foi inicialmente apresentado nos Estados Unidos como uma só longa-metragem constituída por alguns trailers feitos propositadamente para o efeito e por duas metades: Planet Terror, de Rodriguez e Death Proof, de Tarantino. Para a Europa, ou porque o a sessão completa foi mal recebida na América ou porque, como o próprio Tarantino argumenta, por estes lados não estamos familiarizados com a ideia de Grindhouse, À Prova de Morte chega separado e em versão alargada (a mesma que foi exibida em Cannes) e Planet Terror só será lançado lá para Setembro. Poderá isto desvirtuar a ideia inicial? Poderá. No entanto, se passarem pelo cinema, a experiência está lá, tal como o realizador a terá pensado.

Cortes abruptos nos planos e chuva no ecrã

Mais do que um simples filme, Death Proof é uma reconstituição de ambiente. Quase conseguimos sentir o cheiro a tabaco no ar e chegamos a imaginar pipocas perdidas no chão. Mas não. O cinema está limpo e arrumado como sempre. Se não soubéssemos ao que vamos podíamos estranhar a presença de alguns cortes repentinos a meio da conclusão de uma cena, a imagem gasta como a de uma bobine que já foi muito rodada e a chuva no ecrã. Nem nos é dado tempo para nos instalarmos já que, logo a abrir, começa a risada com um aviso de R rated à antiga.

O filme que hoje estreia não é a melhor obra de Tarantino mas o seu génio imaginativo faz com que qualquer coisa abaixo de excepcional ainda seja excelente. A banda sonora retorna fantástica com músicas «queriduchas» a forrar cenas gore ao mais alto nível ou na mais reles forma, conforme quiserem entender a premissa, e a passagem entre cenários é feita da mesma maneira bem desenhada, com o mesmo toque de «amor» que Tarantino dá às suas BDs cinematográficas.

A sugestão para uma destas noites é esta: sigam com a mente aberta e com o espírito receptivo a uma envolvência quase teatral. Só falta mesmo o público bizarro, o cheiro impregnado e a sujidade no chão (se o sítio for escolhido com cuidado talvez consigam reunir todas estas condições) para que este episódio trash salte da tela e invada em pleno esplendor a sala de cinema.

* Uma nota acerca do Grindhouse: O termo americano é típico da década de 70 e surgiu para designar salas de cinema que exibiam filmes exploratórios sobre sexo, violência e que usavam algumas narrativas no mínimo rebuscadas. O mesmo nome passou mais tarde a ser dado aos próprios filmes. Geralmente as sessões Grindhouse eram criadas para serem exibidas em drive-ins mas, como na maioria dos grandes centros urbanos esses espaços não existiam, vulgarizaram-se em velhas casas de dança exótica transformadas em cinemas.

Anúncios

3 comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Fui ver o filme em antestreia e gostei bastante, apesar de achar alguns diálogos um bocado longos! Mas acho que vale bem a pena ver!=)

    Nota:

    No teu post tens uma linha fora de sítio:

    “Kill Bill a fazer dela própria, uma mulher impossível de assustar).”

    que deveria estar, acho eu, no fim desta:

    “Do elenco fazem parte, entre outras, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sidney Poitier (a filha, não o pai), Tracie Thoms e Zoe Bell (a dupla de Uma Thurman em”

    E está a seguir a isto:

    “«somos-sensuais-e-elegantes-mas-partimos-tudo-quando-nos-chega-a-mostarda-ao-nariz».”

    É só um reparo, porque pode confundir os leitores!=)

  2. O único filme de Tarantino que dá seca… até as falhas propositadas o são demais..
    Tributo ou não, o argumento não tem ponta por onde se lhe pegue, a não ser o diálogo do livro das listas.
    Não digo com isto que o filme seja mau, mas sem dúvida o pior do realizador, que era conhecido por ser um excelente contador de histórias.
    As ilusões eram muitas (pois aprecio este género antigo de acção) mas a desilusão também foi grande…
    Um dia destes faço um review.
    Cumprimentos e parabéns pelo blog

  3. Já alterei, Simão. O copy/paste tem destas coisas.
    Obrigada 🙂


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: